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Filosofia  Inserido Sunday 19 October 2008 23:18

marcos bagno

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico, Loyola, São Paulo, 2003

 

            O preconceito lingüístico fica bastante claro numa série de afirmações que já fazem parte de imagem (negativa) que o brasileiro tem de si mesmo e da língua falada por aqui. Feito em mitos, vemos o primeiro que é: “ a língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente”. Este é o maior e o mais sério dos mitos que compõem a mitologia do preconceito lingüístico no Brasil. Esse mito é muito prejudicial à educação porque, ao não reconhecer a verdadeira diversidade do português falado no Brasil, a escola tenta impor sua norma lingüística como se fosse, de fato, a língua comum a de todos os 160 milhões de brasileiros, independentemente de sua idade, de sua origem geográfica, de sua situação socioeconômica, de seu grau de escolarização, etc.

            No Brasil, embora a língua falada pela grande maioria da população seja o português, ele apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade, não só por causa da grande extensão territorial do pais, mas principalmente por causa da trágica injustiça social. A educação ainda é privilégio de muita pouca gente em nosso país. E muitos são considerados como os sem-língua. É preciso, portanto, que a escola e todas as demais instituições voltadas para a educação e a cultura abandonem esse mito de “unidade” do português no Brasil e passem a reconhecer a verdadeira diversidade lingüística de nosso país. No mito dois temos: “Brasileiro não sabe português / só Portugal se fala bem português”. É a mesma concepção torpe segundo a qual o Brasil é um país subdesenvolvido porque sua população não é uma raça “pura”, mas sim o resultado de uma mistura negativa de raças, sendo que duas delas, a negra e a indígena, são “inferiores” à do branco europeu, por isso nosso “povinho” só pode ser p que é. Assim, uma raça que não é “pura” não poderia falar uma língua “pura”. Essa história de dizer que “brasileiro não sabe português”, e que “só em Portugal se fala bem português”? trata-se de uma grande bobagem, infelizmente transmitida de geração a geração pelo ensino tradicional da gramática na escola. O brasileiro sabe português, sim. O que acontece é que nosso português é diferente do português falado em Portugal.

            O mito de que o “brasileiro não sabe português” também afeta o ensino de língua estrangeiras. Assim como nós aqui cometemos “pecados” contra a gramática normativa, os portugueses também cometem os deles, só que, mais uma vez, diferente dos nossos. Uma língua não para nunca. Evolui sempre, isto é, muda sempre. No mito três, vemos: Português é muito difícil”. Como o nosso ensino da língua sempre se baseou na norma gramatical, as regras que aprendemos na escola em boa parte não correspondem à língua que realmente falamos e escrevemos no Brasil. Por isso que achamos que “português” é uma língua difícil. Se tantas pessoas inteligentes e cultas continuam achando que não sabem português ou que português é muito difícil, é porque essa disciplina fascinante foi transformada numa “ciência esotérica”, numa doutrina cabalística que somente os iluminados conseguem dominar completamente. No mito quatro temos: “as pessoas sem instrução falam tudo errado”. Como se vê, do mesmo modo como existe o preconceito contra a fala de determinadas classes sociais, também existe o preconceito contra a fala, característica de certas regiões. No mito cinco se diz: “o lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão”. Acontece, porém, que os defensores desse mito não se dão conta de que, ao utilizarem o critério prescrivista de correção para sustentá-lo, se esquecem de si mesmo.

            No mito seis vemos: “o certo é falar assim porque se escreve assim”. Infelizmente, existe uma tendência muito forte no ensino da língua de querer obrigar o aluno a pronunciar do jeito que escreve, como se fosse essa a única maneira “certa” de falar português. A língua escrita, por seu lado, é totalmente artificial, existe treinamento, memorização, exercício, e obedece a regras fixas, de tendência conservadora, além de ser uma representação não axaustiva da língua falada. Do ponto de vista da história da humanidade é a mesma coisa. A espécie humana tem, pelo menos, um milhão de anos. No mito sete diz: “é preciso saber gramática para falar e escrever bem”. Afinal, se fossem. Assim, todos os gramáticos seriam grandes escritores. Os bons escritores seriam especialistas em gramática. No mito oito vemos: “o domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”. Esse mito fecha nosso circuito mitológico e tem muito haver com o primeiro, o mito da unidade lingüística do Brasil. O que estou tentando dizer é que o domínio da norma cultas de nada vai adiantar a uma pessoa que não tinha todos os dentes, que não tenha casa decente para morar, água encanada, luz elétrica e rede de esgoto. Falar da língua é falar da política, e em nenhum momento esta reflexão política pode estar ausente de nossas posturas teóricas e de nossas atitudes práticas de cidadão, de professor e de ciência. Os mitos que acabamos de examinar são transmitidos e perpétuos em nossa sociedade, cada um deles em grau maior ou menor, por um mecanismo que podemos chamar de círculo vicioso de preconceito lingüístico. Esse círculo vicioso se forma pela união de três elementos que são a gramática tradicional, os métodos tradicionais de ensino e os livros didáticos.

De que modo poderemos romper o círculo vicioso do preconceito lingüístico? Uma coisa não podemos deixar de reconhecer: existe atualmente uma crise no ensino da língua portuguesa. Não e difícil perceber que a norma culta – diversas razoes de ordem política, econômica, social, cultural – é algo reservado a poucas pessoas do Brasil. É o mesmo que acontece com alimentação, saúde, a habitação, o transporte, o acesso às novas tecnologias etc.  podemos identificar três problemas básicos a esse respeito. Primeiro, a quantidade injustificável de analfabetos que existe neste país. Segundo, por razoes históricas e culturais e terceiro, o dilema relativo à norma culta se prende ao fato de que esse termo é usado pela tradição gramatical conservadora. Para separar o ideal do real, é necessário empreender a identificação e a descrição da verdadeira língua falada escrita pelas classes cultas do Brasil. É uma tarefa que tem de ser feita, e que está sendo feita. Chamam erradamente de norma culta uma modalidade de língua que não é culta, mas sim cultuada: não norma culta como ela é, mas a norma culta como deveria ser. Enquanto não chega essa gramática, temos de combater o preconceito lingüístico com as armas de que dispusemos. E a primeira campanha a ser feita, por todos na sociedade, é a favor da mudança de atitude. A gramática tradicional tenta nos mostrar a língua como pacote fechado, um embrulho pronto e acabado. Mas não é assim. A língua é viva, dinâmica, está em constante movimento.

Os métodos tradicionais de ensino da língua no Brasil visam, por incrível que pareça, a formação de professores de português! Em relação a língua escrita, seria pedagogicamente proveitoso substituir a noção do erro pela tentativa de analisar a língua falada, e essa análise será feita, pelo usuário da escrita no momento de grafar sua mensagem, de acordo com seu perfil sociolingüístico.  O ensino da língua na escola é a única disciplina em que existe uma disputa entre duas perspectivas distintas, dois modos diferentes de encarar o fenômeno da linguagem: a doutrina gramatical tradicional, surgida no mundo helenístico no século III a. C., e a lingüística moderna, que firmou como ciência autônoma no final do século XIX e inicio do XX. A doutrina gramatical tradicional, mais velha que a religião cristã, passou incólume pela grande revolução científica que abalou os fundamentos do conhecimento e do pensamento ocidental a partir do século XVI.  A gramática Tradicional permanece viva e forte porque, ao longo da história, ela deixou de ser apenas uma tentativa de explicação filosófica para os fenômenos da linguagem humana e foi transformada em mais um dos muitos elementos de dominação de uma parcela as sociedades sobre as demais. Se é possível falar em “português ortodoxo” é porque certamente também deve existir, na mentalidade de seus defensores  intransigentes dessa nebulosa “ortodoxia” gramatical.

O livro embora com palavras bastante repetitivas e as vezes maçantes, nos traz uma rica reflexão sobre o preconceito lingüístico contato em mitos pelo autor a cada um que vai a obra buscar respostas que o próprio autor não responde deixando assim que cada um faça nascer em si mesmo aquilo que chamamos de resposta que aquieta. O Bagno analisa minuciosamente mito por mito e em cada abordagem que faz nos dá uma visão ao contrário daquilo que dito como certo e que na verdade não é como nos diz o autor. Nós falamos um português que é nosso e que quando muitos valorizam o português de Portugal dizendo que “é o melhor”, sem querer joga o nosso português por terra. Falamos e escrevemos um português próprio e que poderíamos até dizer que não falamos um “português do Brasil”, e sim, falamos brasileiro. A língua é característica de um povo, tem sua identidade, por isso que repito; moramos no Brasil, vivemos do nosso jeito, que é próprio. Por isso falamos brasileiro que parece com a língua portuguesa mais não é propriamente portuguesa.

 

 

                                         Instituto Agostiniano de Filosofia

                                            José Wilson Fabrício da Silva, OAR

                                                           (Filósofo)

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